As mulheres que fazem o Poder Legislativo funcionar

Política 07 mar / 2020 às 19:56

As pessoas que caminham pelos corredores da Câmara Municipal, em dias de sessões ordinárias -às terças e quartas-feiras-, nem sempre se dão conta da quantidade de funcionárias trabalhando para que a casa de leis funcione. Diariamente 73 mulheres do Poder Legislativo se dividem da segurança à secretaria jurídica garantindo que a Câmara municipal exerça sua função de legislar em prol da população sorocabana.

Em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres, comemorado em 8 de março, o Jornal Z Norte conta a história de mulheres que quebram diariamente as barreiras do machismo, lutando contra todos os preconceitos para exercer suas funções na instituição centenária.

Em 359 anos de existência, a Câmara Municipal de Sorocaba teve apenas oito mulheres integrando o hall de parlamentares. Apesar da falta de legisladoras, desde que foi criada, a Secretaria Jurídica da casa sempre foi gerida por uma mulher, a advogada Márcia Pegoreli.

Há mais de 30 anos como operadora do direito, a chefe da pasta contou um pouco como foi seu início de carreira, permeada por uma separação, um filho pequeno e sonho de ser advogada. “Eu comecei na Prefeitura em abril de 1983. Houve um processo seletivo para estagiários, eu passei em primeiro lugar e fui ser estagiária no jurídico. Eu me formei em 1988 -data da vitória do ex-prefeito Antônio Carlos Pannunzio-, no ano seguinte eu fui reclassificada como advogada,” relembrou.

Assim como na Câmara, a Drª. Márcia também teve seu papel de “bandeirante” no Poder Executivo, onde chefiou a Procuradoria do Município. “Alguns anos depois eu fui a primeira procuradora chefe mulher da Prefeitura. Até então era o clube do Bolinha. Depois eu fui convidada para ser a consultora jurídica aqui na Câmara, que era o nome da época. Eu também fui a primeira mulher a ocupar o cargo,” recordou a secretária.

Dos 20 gabinetes de representantes do legislativo municipal, apenas seis são chefiados por mulheres. Esse é o caso de Valéria Lamarca, responsável pela gestão do escritório do vereador Renan Santos (PCdoB).

Um cenário comum às mulheres é o das críticas, que muitas vezes não seriam lançadas sobre pessoas do sexo oposto. “Se você vai fazer uma panfletagem de campanha, os homens são mais cruéis em dar uma resposta para uma mulher, o que com certeza eles não fariam com outro homem,” esclarece Valéria, que complementa, “se é um homem de terno e gravata ele é recebido de uma forma respeitosa, se sou eu, ou outra mulher, eles pensam ‘quem é essa aí?’, com aquele olhar do machismo, tem um julgamento.”

Apesar de toda a experiência, a secretária jurídica ressalta que até os dias atuais precisa enfrentar o descrédito, inclusive de alguns vereadores, muitos deles leigos no direito. “Lá onde ocorre o espetáculo -o plenário-, na sessão, na votação, é lá que eu tenho que mostrar confiança, mostrar que “apesar” de eu ser mulher, eu estou preparada, eu tenho que mostrar segurança, é muito mais difícil,” avalia Marcia que dispara o questionamento, “será que eles acham que nosso cérebro é menor?”

Há pouco menos de um ano integrando o quadro de funcionárias da casa, advogada de formação, Osana Gomes, conta sobre as felicidades e dificuldades de ser mulher no mercado de trabalho. Depois de 30 anos trabalhando na área administrativa no terceiro setor, a funcionária decidiu se aventurar no poder público como assistente da presidência da Câmara.

Contrariando os clássicos comentários machistas de “isso não é coisa de mulher,” Osana se dedicou a liderar equipes totalmente masculinas, à época, quando era gestora de uma balada na cidade, usando um de seus pontos fortes, a gentileza. “Eu sabia tratar as pessoas, sempre com muito respeito e muita educação,” relembra

Todas as entrevistadas, ao serem indagadas sobre um conselho para as próximas mulheres a atuarem na Câmara, todas responderam, quase que de maneira uníssona, “não desistam, é difícil, mas a gente consegue.”

Conscientes dos desafios e dificuldades encontrados nos caminhos de todas as mulheres, a assistente destaca a sororidade vivida nos corredores do Poder Legislativo. “A mulher é diferente, a gente olha para a colega e sabe o que ela está pensando, a gente entende uma a outra,” finaliza. Independentemente de todas as mazelas do dia a dia de uma mulher, Osana dispara. “Eu vou falar para você que não é muito fácil, mas nós estamos dominando tudo, a gente consegue tudo, nós vamos para cima.”

As 73 mulheres da Câmara Municipal nos mostram que elas podem ser advogadas, copeiras, vereadoras, médicas, jornalistas, assessoras, economistas, faxineiras, secretárias e muito mais, que na verdade elas podem ser tudo, mesmo tendo que lidar diariamente com o machismo, a misoginia, o feminicídio e tantos outros fantasmas que assombram o sucesso de todas as mulheres.

 


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