Motoristas ignoram legislação e “furar” sinal vermelho vira praxe na Zona Norte

Imagem por Jornal Zona Norte e Texto por Jornal Zona Norte
  • 15/01/2014 às 11:15
  • Atualizado 30/09/2022 às 11:15
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Não é novidade, mas tem se tornado cada vez mais frequente, especialmente durante o dia. Ignorando a legislação de trânsito vigente e colocando vidas em perigo, incluindo suas próprias, é comum ver motoristas de Sorocaba “furando” o semáforo no estágio vermelho, o que é terminantemente proibido. A situação é bastante praticada também na Zona Norte.

E não se trata de fato verificado apenas a noite, quando há um abrandamento na legislação, e, em alguns casos, a multa pode até ser anistiada. O fato se repete dezenas e dezenas de vezes à luz do dia. O Jornal Z Norte flagrou a situação em dezenas de semáforos em locais estratégicos nas Avenidas Ipanema e Itavuvu, os dois maiores corredores da região.

Quem presencia a situação, parado e obedecendo ao que diz a legislação, fica indignado. “Eu me sinto um idiota. É como se o cara fosse mais do que eu. Como se meu tempo tivesse menos valor que dele”, desabafa o mecânico Gerson Santa Dutra. “Você vai à Vila Helena e em outros bairros da cidade e vê que o desrespeito é igual. Ninguém está nem aí”, termina.

De acordo com outros motoristas, motociclistas são os que mais desrespeitam. “Você pode notar, eles se junta ali perto da faixa. Aí, o farol nem abriu e saem feitos loucos. Saem no vermelho, mesmo. Aí tem o outro lado do semáforo. Eles saem do mesmo jeito. É muito arriscado”, argumenta o servidor Arnaldo Nicolete.

Nem os motoristas de ônibus do transporte coletivo de Sorocaba escapam da situação. Diversas situações de irregularidades também foi flagrada pela reportagem.

 

Números

De acordo com a Urbes, autarquia que controla o trânsito e o transporte na cidade, houve redução na média geral de multas aplicadas na cidade. Em 2014, a média mensal era de 1.284 infrações registradas. Nos três primeiros meses deste ano, a média mensal caiu para 873. A redução foi de 32%.

Ainda conforme a Urbes, em 2014 foram computadas pelos dispositivos de avanço semafórico 8.542 infrações. De janeiro a março de 2015, foram computadas pelos mesmos dispositivos 873 infrações.

Com relação as multas aplicadas pelos agentes de trânsito, no ano passado foram computadas 6.870 infrações com relação ao avanço de sinal vermelho. De janeiro a março deste ano foram computadas 1.747 infrações aplicadas por agentes de trânsito por avanço ao sinal vermelho. Na média, há um crescimento de 1,7%. É importante frisar que os números da Urbes detalha apenas o total geral da cidade e, necessariamente, não representam os números da Zona Norte da cidade.

 

Posicionamento

A Urbes ressaltou que a fiscalização é realizada de forma rotineira por meio dos agentes de trânsito e controladores de avanço semafórico.

De acordo com a Urbes, programas educativos são desenvolvidos para evitar as situações. “Em todas as suas campanhas, blitz e palestras educativas, a Urbes sempre reforça que as leis de trânsito devem ser respeitadas por todos os elementos que compõe a mobilidade urbana”, firma a autarquia através da Assessoria de Imprensa. “Infelizmente uma parte dos condutores não adota posturas seguras na condução de veículos automotores e desses atos ocorrem graves acidentes que ceifam vidas ou causam sequelas permanentes”, lamenta.

Com relação aos motoristas do transporte coletivo, Urbes disse em nota lamentar a situação. “A Urbes – Trânsito e Transportes não compactua com infrações às regras de trânsito, que felizmente é tomada por uma minoria dos motoristas do transporte coletivo. Quando recebemos denúncias desse tipo, contatamos a empresa responsável pelo profissional para que este seja advertido e orientado sobre suas obrigações para a condução segura e responsável de veículos.”

Desrespeitar o sinal vermelho do semáforo ou de parada obrigatória é infração de trânsito prevista no artigo 208 do CTB, de natureza gravíssima, sujeitando o condutor infrator à penalidade de multa no valor de R$ 191,54.

 

Para especialista, aparelhos de fiscalização “domesticam” motoristas

Com relação aos motoristas que passam no sinal vermelho, como o número de multas aplicadas no município por agentes de trânsito aumentou e o número de multas aplicadas por aparelhos caiu drasticamente é possível afirmar que os motoristas, de certa forma, foram domesticados pelos aparelhos. Ao menos é isso que pensa José Aurelio Ramalho, diretor-presidente do ONSV (Observatório nacional de Segurança Viária). “Existe uma tendência do motorista respeitar a fiscalização quando ele sabe que está sendo “vigiado”, o que acaba fazendo com que ela seja inócua, ineficiente mesmo. Nós temos, sim, uma cultura de transgressão. Outro exemplo comum: motoristas costumam sinalizar aos outros quando percebem uma blitz nas estradas ou na cidade”, diz. “Temos que incentivar a construção de uma cultura da segurança que conscientize a todos que a partir do momento que a informação possa ser assegurada, com a sinalização da velocidade na via, o motorista não precise saber, por exemplo, onde está o radar; mas, sim, que ele deve estar dentro dos limites de velocidade que garantem a preservação da vida”, acrescenta.

De acordo com Aurelio, que é um dos maiores especialista na questão no Brasil, o trânsito não é tratado como prioridade pelo Estado. “É difícil acreditar que os municípios invistam em ampliação de equipes, sobretudo, em tempos de “aperto de cinto”. Infelizmente, o trânsito com todos os seus prejuízos não é tratado como prioridade dos governos. Com prevenção, os gastos do poder público com o trânsito seriam bem menores, pois os custos quem paga nem sempre é o trânsito e sim a saúde, a qualidade de vida, o meio ambiente. Se não houvesse infratores, não precisaria haver fiscalização”, argumenta.

Aurélio ainda aponta como negligente a maneira como os motoristas dirigem atualmente. “Eu não diria que o homem deixou de priorizá-la (a vida) – porque é inerente ao ser humano a necessidade de sobreviver, mas que ele é negligente com esse tema, é, sem dúvida” opina.

 

Caminhos

Por fim, o especialista aponta os caminhos para amenizar os problemas. “Nós apostamos, em primeiro lugar, no tripé educação/formação e conscientização. A conscientização precisa ser massiva, chegar a todas as idades e a todos os segmentos, além de ser permanente. Já em relação à formação, sabemos que nossos condutores não são preparados, nem formados para dirigir com segurança. Acredito que é preciso privilegiar a formação e a segurança do condutor, pois estaremos priorizando a vida dele e a dos outros. Não há dúvida que a formação inadequada e insuficiente do condutor pesa muito e é definidora para esse quadro de violência e mortes no trânsito”, explana. “A educação e formação para o trânsito deve ser um processo contínuo que pode ganhar espaço nas escolas como etapa inicial para uma nova cultura de segurança; e ter no trabalho dos CFCs a complementação necessária no processo de preparação para dirigir com responsabilidade. Entretanto, a formação não pode ser para o adestramento, mas para a direção com responsabilidade e segurança, devemos priorizar a percepção do risco. Podemos exemplificar, na formação atual quando um motorista aprende que ele não deve desrespeitar um semáforo, a associação natural é que ele será multado e não que ele pode matar alguém”, emenda. “Também existe o fato de que o novo condutor paga por uma formação que ele praticamente não recebe. Assegurado isso, a fiscalização seria vista como um processo muito mais natural, mais uma etapa educativa e não só punitiva, com poucos resultados”, conclui.

 

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O conteúdo sobre trânsito faz parte da série de reportagens produzida pelo Jornal Z Norte em virtude do movimento Maio Amarelo