Prefeitura estuda transferência de alunos da Matheus Maylasky, mas comunidade é contra “entrega” do prédio

Imagem por Jornal Zona Norte e Texto por Jornal Zona Norte
  • 12/01/2016 às 14:21
  • Atualizado 30/09/2022 às 14:21
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A Prefeitura de Sorocaba sinalizou nesta quinta-feira (11) o fim das atividades na escola municipal Matheus Maylasky, ao menos no prédio que fica no início da Rua Comendador Hermelino Matarazzo.

Conforme o executivo, há estudos nesse sentido. “Existem estudos para a transferência da escola para novas instalações, na Avenida Afonso Vergueiro, e outros estudos que estão sob a análise dos diretores e do reitor do Instituto Federal”, afirma a municipalidade via Secretaria de Comunicação (Secom). “A possível mudança não trará nenhum prejuízo aos estudantes”, garante a prefeitura de Sorocaba. “Pelo contrário, todos sairão ganhando – os alunos do Maylasky, que terão instalações próprias, definitivamente suas, e toda a comunidade sorocabana, que irá ganhar uma instituição de ensino superior representativa em todo o País, oferecendo cursos gratuitos aos nossos jovens e qualificando ainda mais a nossa força de trabalho”, completa.

A municipalidade informou ainda que já ocorreu a transferência do prédio para o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFSP). “O prédio em que está instalada a escola municipal Matheus Maylasky pertence a uma instituição privada. Cedido em comodato à municipalidade até 2026, o imóvel teve a sua concessão transferida na gestão municipal anterior para o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, que assumiu o compromisso de oferecer à população uma série de cursos técnicos, de graduação e pós-graduação lato sensu e stricto sensu”, termina.

A municipalidade negou que alguma reunião esteja agendada para tratar o tema, conforme cogitado na quarta-feira (10).

 

Instituto afirma desconhecer transferência

O Instituto Federal de São Paulo também foi questionado pela reportagem na quinta-feira (11). Via assessoria de imprensa, a entidade afirmou desconhecer que o prédio já esteja sob seu domínio ou que solicitou alguma estrutura ou local específico. “Não foi solicitado nenhum espaço específico da cidade, e até o momento o IFSP não recebeu nenhuma proposta oficial. O Instituto Federal de São Paulo e a Prefeitura Municipal de Sorocaba buscam o local mais adequado para oferecer educação de nível técnico e superior gratuita e de qualidade, de forma a expandir suas atividades e contribuir para o desenvolvimento socioeconômico e científico da região”, afirma a instituição. 

O IFSP afirma ainda que “para atender à crescente demanda de estudantes e de novos cursos, que exigem uma estrutura maior, o IFSP em Sorocaba necessita de um outro prédio” e que “por isso, foi solicitada a cooperação da prefeitura da cidade para a busca desse espaço que possibilite a ampliação da oferta do ensino técnico e superior, atendendo à região metropolitana de Sorocaba.”

 

Gestão Pannunzio nega transferência

Diante da contradição, a reportagem questionou o ex-secretário de educação de Sorocaba Flaviano Agostinho de Lima, que ocupou a pasta em boa parte da gestão do ex-prefeito Antonio Carlos Pannunzio (PSDB). Ele negou com veemência a destinação do prédio para o instituto, conforme afirma a Prefeitura de Sorocaba.  “Não tem qualquer procedência a afirmação da atual gestão municipal de que a nossa gestão anterior tenha concedido a transferência do imóvel da Escola Municipal Matheus Maylasky ao Instituto Federal de São Paulo (IFSP)”, diz. “Também não se pode confundir como cessão o fato de que, há muitos, anos o IFSP utilizou algumas salas do prédio do Maylasky (e somente à noite), enquanto reformavam as instalações no bairro de Santa Rosália”, acrescenta.

Flaviano afirma ainda que chegou a enviar documentos para o instituto falando da impossibilidade da transferência. “Ao contrário, conforme prova minuta de ofício anexo (arquivo com data original de 05/11/2015), a qual foi assinada por mim, numerada e enviada ao Instituto Federal de São Paulo diante de pedido insistente, deixamos bem claro que não seria possível a cessão/transferência por impedimento legal, estabelecido nos termos da Lei Municipal nº 5.057, de 26 de fevereiro de 1996 e do contrato de comodato entre a Prefeitura de Sorocaba e a antiga FEPASA-Ferrovia Paulista S.A, hoje pertencente à União. Não só isso: sugerimos que o IFSP se articulasse com o Parque Tecnológico ou o Governo do Estado, visto a reorganização escolar à época”, acrescenta. “Que eu saiba, também, não há qualquer Projeto Lei que tenha alterado a Lei Municipal 5.057/1996 ou outro Projeto ou Decreto visando transferir o imóvel por parte de minha gestão enquanto Secretário Municipal, condição necessária para a concretização da cessão”, conclui. 

 

Comunidade é contra

Sob qualquer das hipóteses, ou seja, com a doação ou não, os pais e a comunidade em geral é contra a saída da escola do local.  “Está notícia sobre as mudanças dos alunos para outro lugar, sabe Deus para onde, nos pegou de surpresa, pois nossa luta para manter o ensino fundamental já foi grande. Agora isso, uma escola que faz parte da história de Sorocaba como simplesmente vai ser apagada assim?”, questiona Sandra Cristina da Silva Proença, que tem quatro filhos, dos quais dois se formou pela escola e outro continua estudando.

 “Meu avô era da antiga sorocabana. Infelizmente, não consegui estudar lá, mas hoje meu filho estuda e esse prazer eu tenho”, afirma Leila Rejane de Castro. “É uma escola onde muitos pais esperam anos para colocar o filho. Ela é referência. Meu pai estudou lá. Em minha opinião a decência desta escola chama muito atenção, pois não tem banca de gente na frente para vender droga, ‘maloqueiros’. Tem inspetor no portão da entrada assegurando que nossos filhos entrem com segurança e permaneçam na escola. Lutamos para colocar interfone no porta. Tem professor que eu vejo no meu cotidiano dar uma atenção além da conta para as crianças com deficiência. Eles já recebem a criança carregando no colo para ajudar a tirar do carro”, lembra.

Uma reunião teria ocorrido na quarta-feira (10) para tratar do tema, mas os pais teriam sido impedidos de participar. “Temos crianças especiais nessa escola. Como ficaria a situação. Isso está muito chato e estamos tentando assimilar o que está acontecendo”, afirma outro pai. O encontro teria reunido membros do Executivo, do instituto e do Legislativo da cidade. Outra reunião deveria ocorrer nesta sexta-feira.

Outra mãe fala novamente de reuniões realizadas para tratar do tema. “Durante três anos esse assunto nos assombra com muitas contradições que vem sendo disseminada sobre perdermos o prédio da escola Matheus Maylasky para o IFSP. Para esclarecer de vez a situação, alguns pais de alunos da escola foram convidados pelo senhor Denilson Mirim para uma reunião. Nesta reunião o Senhor Denilson Mirim, hoje responsável pela gestão do IFSP de Sorocaba, nos deu a sua palavra que o IFSP não tinha intenção de tirar o prédio da escola Matheus Maylasky, ressaltando com muita ênfase que isso iria contra a própria política do IFSP de fechar e tirar escolas de crianças. O senhor Denilson nos apresentou o plano do projeto de expansão do IFSP onde nos mostrou que a expansão seria nos três galpões que ficam atrás do prédio da escola Matheus Maylasky”, explica Luciana Silva, que também luta para que a escola  Matheus Maylasky não deixe o local. “Ele mencionou que toda aquela área poderia ser um complexo voltado a educação juntamente com a parceria com a escola Matheus Maylasky, sempre dizendo que com os nossos filhos ninguém iria mexer. Porém em uma reunião que ocorreu a pedido do vereador Péricles, no qual o próprio vereador foi “desconvidado” a participar, o Senhor Denilson Mirim disse que o Reitor do IFSP vai tirar o instituto de Sorocaba se a prefeitura não ceder um espaço pronto para expansão. Sendo assim pelas informações passadas pela Secretaria de Educação Marta Cassar o Crespo pediu a ela estudos de prédios ou espaços para disponibilizar ao IFSP”, continua.“Sobre toda essa pressão a secretária de educação apresentou opções para o IFSP, porém segundo ela o IFSP não quer aceitar nada, só aceita o prédio das crianças da escola Matheus Maylasky. Nós, pais, com ajuda da comunidade escolar, reformamos todo o prédio do Matheus Maylasky. Se aquilo está de pé é graças nós, pois a prefeitura contribuiu com muito pouco”, esclarece a mãe. Temos selo, amor e paixão por cada pedacinho daquela escola. A história está presentes em cada cantinho. Esse ano a escola completa 70 anos. Não se joga isso no Lixo”, desabafa.

Ela ainda fala de compromisso de campanha do atual prefeito “Durante a campanha do Crespo (prefeito José Crespo – DEM), fizemos uma reunião com ele e país de alunos, no qual ele nos garantiu que o prédio seria sempre da escola que as crianças estavam seguras, que isso jamais aconteceria se ele ganhasse a eleição. E agora como fica? Eu como cidadã e mãe de aluno da escola Matheus Maylasky cobro aqui o comprometimento do Crespo conosco”, termina.

Kelen Paveni, que é uma das mães mais articuladas em torno da situação. Conforme ela reuniões definiram que os alunos estudariam na unidade somente até o final deste ano; “São setenta anos que histórias que querem jogar lixo”, diz. “Vai prejudicar uma gama muito grande de alunos. O prédio está em pé por causa de festas e mais festas que mandamos fazer”, lembra. Ainda conforme ela, a escola tem vários pontos de acessibilidade, condição que não estaria presente na unidade oferecida pela Prefeitura de Sorocaba. “Ninguém está pensando no que é melhor para os nossos filhos”, acrescenta. Ela também ressaltou também a questão do compromisso de campanha do atual prefeito. “Estamos tomando uma apunhalada pelas costas”, desabafa. “Estamos no meio do fogo cruzado, onde os maiores prejudicados são os nossos filhos. A raiz histórica da escola Matheus Maylasky está no complexo ferroviário”, opina. “Não sabemos quem está sendo sincero e quem está faltando coma verdade”, conclui.

Uma manifestação promovida pelos pais deve ocorrer nos próximos dias. Além disso, um vídeo sobre a situação também deve ser produzido.