Mercado Distrital: apesar de abandonado, local é referência em compras na Zona Norte

Mercado Distrital: apesar de abandonado, local é referência em compras na Zona Norte Imagem por Jornal Zona Norte e Texto por Jornal Zona Norte
  • 24/11/2017 às 18:13
  • Atualizado 12/09/2022 às 18:13
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Boxes fechados, paredes danificadas, muito pó, além de banheiros sem manutenção: apesar da falta de estrutura adequada, o Mercado Distrital é referência em compras aos finais de semana. Localizado na rua Benedito Galdino de Barros, na Vila Fiori, o local continua sendo tradicional para abastecer a despensa, principalmente quando se trata de frutas, legumes e verduras. No entanto, quem frequenta também reclama da situação em que está o prédio. “Eu moro aqui no bairro desde que nasci, venho desde o início. Podia ter mais estrutura. Você vai no banheiro, e não tem porta, nem papel higiênico. E quem precisa? Se tiver uma dor de barriga, como é que vai fazer?”, protesta Luis Carlos Martins, de 53 anos. “O prefeito tinha que ver isso. Não só ficar brigando por outras coisas”.

Os comerciantes também se queixam da precariedade. “Fico chateado de ver como está aqui”, afirma Orlei Rodrigues, de 68 anos, proprietário de um açougue instalado no prédio. “Uma vez, uma mulher de São Paulo encomendou uma leitoa aqui, através de uma parente, e veio buscar. Ela entrou aqui, me viu no corredor e perguntou o que era aqui. Ela tinha pensado que era um casarão velho”, lembra. Durante a semana, segundo ele, o movimento é fraco, mas compensa no domingo, quando acontece uma feira livre em parte do estacionamento.

O açougueiro conta que tinha o comércio dentro do Mercado Municipal, no Centro, mas que decidiu mudar o ponto depois do sucesso de vendas. “Primeiro eu trouxe meu irmão, que ficou um ano aqui. Aí vimos que dava certo e eu saí de lá [do Mercado Municipal] pra vir pra cá. Estamos desde o início”, afirma. Durante a entrevista, o movimento de clientes no açougue não parou e, de acordo com o proprietário, pessoas de toda a cidade vêm comprar ali. “Tem gente que atravessa a cidade pra vir aqui. Se eu tirar o açougue daqui, acabou [o Mercado]”. Além das vendas no balcão, a casa de carnes também faz entregas para restaurantes e churrascarias de Sorocaba. “Agora vamos ver, lutar, para reformar isso aqui. Tinha que ter uma Casa Lotérica, um sacolão, uma peixaria”, pondera.

 

Prédio tem 36 anos, mas nunca foi reformado

Questionamos a Prefeitura em relação aos problemas encontrados no Mercado Distrital, e a nota enviada esclareceu que, apesar da importância histórica e a tradição do local, o prédio nunca foi reformado, somente passou por manutenções periódicas. O Paço informou que o Mercado existe há 36 anos sendo inaugurado em 15 de maio de 1981, mas a municipalidade passou a administrá-lo somente a partir de 1986. Já a feira livre funciona há 23 anos, desde 1994, conta com 58 barracas cadastradas e, ainda segundo a Prefeitura, 500 pessoas, em média, passam por ali semanalmente, sendo a maior parte no domingo, quando acontece a feira.

A Secretaria de Abastecimento e Nutrição (Seaban), a pasta responsável pela gestão do Mercado, no entanto, afirmou que “está finalizando o projeto de implantação de uma Central de Entreposto e Abastecimento (Ceaso) que ocupará os boxes ociosos, revitalizando o local. O objetivo é resgatar a função para o qual o imóvel foi projetado e construído, atendendo assim as demandas do setor produtivo de Sorocaba, principalmente em relação aos produtores da agricultura familiar, médio e pequenos produtores, contemplando ainda, a reforma dos banheiros”. Não foi informada, no entanto, qualquer previsão para que isso aconteça.

 

 

 

 

Amor – o ingrediente secreto dos feirantes

Quem está todos os dias ofertando seus produtos aos domingos na feira livre do Mercado Distrital, o faz por amor. Francisco Bernardi Neto tem 64 anos, com 53 deles vividos atrás de uma banca. “Comecei aos 9, com meus pais. Antes fazia feira todos os dias, hoje é só aos finais de semana, assim posso cuidar do meu sítio”. Francisco comercializa bananas e palmitos, aos sábados na feira do Largo do Líder, e aos domingos ali e na Santa Maria. No entanto, a rotina de trabalho é diária. “Na segunda-feira eu vou para o meu sítio, em Juquiá (SP), corto as frutas e trago para Sorocaba. Na terça eu volto para cuidar dos palmitos, e volto só na sexta-feira, com tudo pronto para o fim de semana”. Por ser produtor, Francisco pratica preços mais baixos, segundo ele, inclusive do que de outros feirantes. “Como é tudo orgânico, sem agrotóxico, dá mais trabalho produzir. Por isso o pessoal vem comprar direto aqui”.

É também por amor que a família de Francisco se envolve com a banca. É o caso de Franciene Bernardi, filha do comerciante. Aos 20 anos, ela trancou o curso de Ciência da Computação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), para trabalhar com o pai. “Ele sofreu um infarto no ano passado, então eu voltei. Cresci vindo aqui. Quando eu morava em Santa Catarina, até estranhava na hora de fazer as compras no supermercado”, conta ela. “Minha irmã mais velha está estudando Engenharia Agronômica, justamente para continuar a cuidar do nosso sítio”.

Aos domingos, a rotina da família começa cedo. “A gente chega aqui por volta de uma hora da manhã, descarregamos tudo e montamos a barraca. Enquanto meu pai leva a minha mãe na outra feira, a gente vai para uma casa no Jardim Iguatemi, dormimos lá, e voltamos às 6h”. Já a saída ocorre somente por volta das 14h. “Eu acordo cedo no domingo e estranho se não venho pra cá. Faz parte da rotina”, afirma a jovem.

Já o pai, nem pensa em parar de trabalhar. “Aquilo que você faz com amor e carinho, você não cansa. Eu vou sentir falta, não é tanto pelo dinheiro, mas pelo amor da terra. Eu gosto muito de plantar, de ver crescer”.

E o Mercado Distrital não é somente para compra de hortifruti. Quem também tem fama de bom comerciante ali é Raimundo Paiva, de 64 anos, que vende pacotes de nhoques semi-prontos. “Tem o tradicional, mas também tenho recheado com queijo prato ou com calabresa”, informa o vendedor. O pacote do nhoque tradicional custa R$ 10, já o recheado, R$ 14. “Vendo em média 35 a 40 pacotes por feira. Eu fico aqui e minha esposa fica na Vila Jardini”. Só no Mercado Distrital, Raimundo trabalha há oito anos. “Eu fazia todas as feiras, mas preferi ficar aqui porque foi a primeira feira que eu comecei, então tenho minha clientela”. A rotina dele começa na quarta-feira, quando vai comprar as batatas. “Na quinta eu produzo 30 quilos de nhoque tradicional, e na sexta 12 quilos de nhoque recheado. É um trabalho manual, praticamente artesanal, não tem conservante, não tem muita farinha. Trabalho com uma batata especial, então o pessoal gosta”.

 

 

 

 

Boas amizades são o tempero das compras de domingo

Quem vai ao Mercado Distrital todo domingo não somente abastece a despensa, mas também revê os amigos. Quem faz questão de acordar cedo para estar ali, além de encontrar produtos mais frescos e mais baratos, também aproveita para atualizar as novidades do fim de semana. “A gente faz amizade com os frequentadores e também com os proprietários das bancas. Faz parte do domingo vir aqui”, afirma o comerciante Cícero Donizetti Santos, de 48 anos. Na feira, ele compra de tudo: “frutas, legumes e ovos. O giro do ovo aqui é muito rápido. Se você vem às 12h, não tem mais. É muito melhor do que no supermercado, que às vezes o produto está lá já há uma semana”. Além disso, para Cícero, estar ao ar livre também faz toda a diferença. “Você sai um pouquinho do trivial, do ambiente fechado”, explica o morador do Jardim Maria Antônia Prado. “Pelo volume de pessoas aqui você percebe que é um lugar agradável. Mesmo que você venha no fim do dia, está cheio”.

Já o casal Tiago Domingues, de 29 anos, e Caroline Melo, de 24, têm um objetivo definido ali: comprar morangos. “A gente faz camafeu, aí compramos o morango aqui”, explicam. Eles compram semanalmente cinco bandejas, gastando em média R$ 15. “É o melhor lugar para comprar os morangos. O resto, compramos no supermercado mesmo. Aqui é mais em conta e a qualidade é melhor”. Os dois moram na Vila Mineirão, e afirmam que as frutas que adquirem ali todo domingo, acabam em uma semana.

Fazer as compras no Distrital também é mais fácil para quem trabalha durante a semana. Este, pelo menos, é o principal motivo de Mario Motonori Yabiku, de 60 anos. Ele também compra legumes, frutas e verduras, e garante: “é a melhor de todas as feiras que eu conheço”.

A amizade entre os feirantes e os compradores é tanta, que até a famosa caderneta também entra em cena. “Se a gente está com dinheiro, levamos, mas se estamos sem dinheiro, não tem problema. O produto é muito bom, tudo fresquinho. Eu procuro vir aqui para ter uma alimentação melhor”, conta Claudio Piantola, de 63 anos. Ele mora no bairro e afirma que ir no Distrital é “primeiro pela amizade, depois pela compra. Tenho amizade com todos os feirantes. Tudo que tem aqui a gente leva e fica contente”.

Já o casal Carlos Alberto Fernandes, de 62 anos, e Maria da Graça Thomazini Cozer Fernandes, de 65, tem as bancas certas em que fazem as compras. “Ficamos mais ou menos 40 minutos aqui, todos os domingos. Frequentamos aqui desde o começo, há uns 20 anos”.

No entanto, as novas gerações também fazem questão de estarem ali. É o caso do impressor gráfico Bruno Marcelino Santos, de 30 anos, que sempre traz o filho quando vai ao Distrital. “Venho comprar frutas e legumes para o meu filho. Aqui é bom. Aos domingos fica mais tranquilo para vir e fazer as compras”.