Ex-atleta e artista plástico tetraplégico fala sobre os desafios e a importância de não desistir da vida

Inclusão 08 nov / 2018 às 09:41

Leandro Portella lesionou a medula há vinte anos, após mergulhar em água rasa, tipo de acidente que ocupa a segunda posição entre as causas de lesões medulares, ficando atrás, apenas, dos acidentes de trânsito.

“Eu mergulhei e bati a cabeça contra um banco de areia. Imediatamente, deixei de sentir todo o meu corpo, do pescoço para baixo. Fui socorrido e me deram seis meses de vida. Só que isso aconteceu há vinte anos… Se eu tenho um sonho? Ser paraplégico! Parece estranho falar assim, porém, quando você só consegue mexer a cabeça, voltar a respirar sem o uso de aparelho ou, então, entender os sinais do corpo já é uma grande conquista”.

Com essas palavras, o ex-atleta e artista plástico Leandro Portella, de 37 anos, transmitiu um pouco do que é conviver com a paraplegia, durante palestra que conduziu, na segunda-feira (29/10), a profissionais da área de reabilitação, no Centro de Estudos do novo Hospital Regional “Dr. Adib Domingos Jatene”, em Sorocaba (SP).

Leandro Portella falou sobre os desafios superados diariamente após o acidente que o deixou tetraplégico.

Leandro Portella expôs ensaio fotográfico em que abordou a questão da sexualidade dos lesionados medulares.

Natural de São Paulo (SP), Leandro adquiriu a deficiência após um acidente de mergulho em uma praia, quando tinha 17 anos. O mergulho em água rasa é a quarta causa de lesão medular no Brasil, subindo para a segunda posição, no verão e perdendo apenas para os acidentes de trânsito com motocicletas. Os dados são da Sociedade Brasileira de Coluna (SBC).

Prof.ª Dra. Matilde Sposito, médica fisiatra, especialista em bloqueios neuroquímicos e coordenadora do Setor de Reabilitação do novo Hospital Regional Dr. “Adib Domingos Jatene”, que convidou Leandro para o evento, explica que os jovens são as principais vítimas dos acidentes que levam às lesões medulares. “Os casos de lesões medulares incluem disparos de arma de fogo (em menor número) e acidentes de trânsito e mergulho (no topo da lista), sendo os jovens as principais vítimas. Somente nos últimos dois meses, aqui, no hospital, houve três casos de motociclistas acidentados, que foram encaminhados para a reabilitação por conta de lesões medulares”, lamenta.

Leandro Portella encontrou na pintura uma forma de expressar seus sentimentos e impressões.

Participaram da palestra profissionais da área de reabilitação física de Sorocaba e região

Quadros pintados por Leandro Portella, que utiliza um pincel na boca.

A reabilitação física dos deficientes por lesão medular é um processo longo, que exige o cuidado de equipe multidisciplinar altamente capacitada. “Durante a minha vida, eu passei por situações desagradáveis, com profissionais que não entendiam sinais do corpo de um tetraplégico, que podem indicar a necessidade de ir ao banheiro, por exemplo”, relembra Leandro.

Quando os sinais fisiológicos são ignorados podem ocorrer graves crises, conhecidas por disreflexia autônoma, o que é perigoso. “Vários estímulos que deveriam ser incômodos e, até mesmo, causar dor, como a bexiga cheia ou a vontade de evacuar, lesões, fraturas ou infecções urinárias, não são sentidos pelo lesionado medular e podem desencadear esses sinais, que incluem aumento da pressão arterial, pele avermelhada, crise de ansiedade, dor de cabeça, dentre outros”, explica Prof.ª Dra. Matilde.

Quando a origem do problema não é rapidamente identificada e resolvida, ocorre uma emergência médica, que coloca em risco o paciente, reforçando a importância da capacitação da equipe responsável pelo atendimento médico. “Também é primordial ensinar o paciente a identificar as sensações profundas ou viscerais, que são discretas, mas transmitem informações muito relevantes”, complementa a especialista.

Outra questão abordada por Leandro, durante a palestra, foi o desenvolvimento da sexualidade dos lesionados medulares. “Tudo é questão de readaptação. Com o tempo, eu fui conhecendo novamente o meu corpo e descobrindo o que era capaz de fazer e sentir”.

Prof.ª Dra. Matilde afirma que esse também é um ponto que deve ser abordado durante a reabilitação de lesionados medulares. “Centros de reabilitação mais bem preparados possuem equipes específicas para promover a readaptação sexual do paciente. No entanto, esta é uma questão considerada tabu por muitas instituições de saúde, o que acaba por prejudicar a recuperação da qualidade de vida de quem sofre com a lesão”, pontua a médica fisiatra.

Além do acompanhamento profissional especializado, o apoio da família também é determinante para a recuperação. “Observamos que a taxa de mortalidade é muito maior entre aqueles que não têm o carinho e a compreensão da família”, aponta Prof.ª Dra. Matilde.

Leandro também concorda com o apontamento da médica. “Não sei o que teria sido de mim sem a dedicação da minha mãe, que, desde o dia do acidente, esteve comigo todos os dias, ajudando e comemorando cada conquista”, relembra.

Após a palestra, os participantes puderam conferir uma exposição de fotos e telas produzidas por Leandro, que pinta com a boca. Além da pintura, ele também aprendeu a usar o computador, por meio de comando de voz, o que o permite administrar e alimentar blogs. Artista plástico, graduado em Gestão Pública, foi vereador na Câmara Municipal de Araçoiaba da Serra, presidente do Banco de Cadeira de Rodas do Rotary Araçoiaba e delegado do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência na mesma cidade.

A iniciativa do encontro fez parte do Programa de Estudo e Capacitação do Setor de Reabilitação do hospital. Conforme explica Prof.ª Dra. Matilde, o projeto visa conscientizar e capacitar os colaboradores do hospital para a melhoria contínua na qualidade do atendimento e, também, incentivar a humanização no contato com os pacientes. As palestras são gratuitas e abertas ao público. Os próximos eventos deverão abordar a conduta e o preparo dos profissionais da saúde ao dar a notícia sobre o estado incapacitante irreversível de um paciente e os cuidados paliativos em doentes sem possibilidade de cura.

Sobre Prof.ª Dra. Matilde Sposito

Prof.ª Dra. Matilde Sposito é graduada pela Faculdade Bandeirante de Medicina e especialista em Medicina de Reabilitação pela New York University (NYU), nos EUA. Possui residência médica na Associação de Assistência à Criança Defeituosa (AACD), de São Paulo e é pós-graduada em medicina com o título de Doutora (mestrado e doutorado Stricto Senso) pela Escola Paulista de Medicina. Possui curso em pesquisas clínicas (Clinical Trials) pela Universidade de Harvard, nos EUA e também atua na área de consultoria, sendo assessora médica em neurociências, para o Brasil e a América Latina, do Grupo Medical Affairs da Allergan Produtos Farmacêuticos. Além disso, faz parte do grupo Mentors do Allergan Medical Institute, para estudos da espasticidade. Atualmente, também é coordenadora do Setor de Reabilitação do novo Hospital Regional de Sorocaba “Dr. Adib Domingos Jatene”.

Mais informações podem ser obtidas pelo Facebook: facebook.com/dramatildesposito ou pelo Instagram: @dramatildesposito.

fonte: Q Notícia (Redação – Alexandre Machado)

 

 

 


Mais Notícias